terça-feira, 19 de agosto de 2014

Como avaliar a solidão

A solidão é um tema cada vez mais discutido atualmente e com razão. As famílias diminuíram, os contatos afetivos estão cada vez mais espalhados e MUITA gente mora sozinho e vive assim a maior parte do seu tempo. Quando se é idoso esse tema pesa ainda mais.

Para profissionais de saúde é importante avaliar a solidão, mas o Brasil não tem instrumentos adequados para isso. Esse foi um dos motivos que levou a professora Valéria Sousa de Andrade e eu a assumirmos a validação da Escala UCLA de Solidão para o Brasil.

A pesquisa está em fase de coleta de dados e se você quiser colaborar conosco, basta acessar o link abaixo e responder ao instrumento. Nós agradecemos!

https://pt.surveymonkey.com/s/PQJFShttps://pt.surveymonkey.com/s/PQJFSWQWQ

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Cartilha sobre Demências

Como profissional da área da saúde sempre me preocupei com pacientes com diversas patologias e com seus cuidadores. O curso de Psicologia me preparou para pensar nos pacientes e minha vivência dentro de Hospitais Psiquiátricos e no convívio familiar me prepararam para olhar para os cuidadores.

Há dois anos meu pai foi diagnosticado com o Mal de Alzheimer e somou-se a minha preocupação profissional uma nova preocupação, de cunho pessoal. Isso foi um dos motivadores para começar a trabalhar com outros profissionais de saúde da universidade em que trabalho e montamos uma cartilha com algumas orientações. Esse material, que tem distribuição gratuita, traz algumas explicações e orientações sobre como lidar com pessoas com demências.

Caso tenha interesse em conhecer o material, acesse: www.uftm.edu.br/ladi ou a sessão de arquivos desse blog.www.uftm.edu.br/ladi

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Mas e quando a vida pesa?


Muitos de nós têm problemas sérios ao longo da vida, carências as mais diversas e situações conflitivas e angustiantes, mas certas pessoas lidam com isso de forma mais positiva, enquanto outras pessoas desesperam-se e não conseguem reagir.

Essas atitudes esbarram em dois conceitos muito estudados em Psicologia: resiliência e enfrentamento (coping). Resiliência diz respeito a uma capacidade interna para achar recursos e alternativas que permitam manter a saúde mental (e o equilíbrio emocional) diante de situações adversas. Não significa que as coisas saírão bem, sisgnifica dizer que a pessoa que enfrenta problemas consegue alocar recursos internos (flexibilidade, capacidade de planejamento, autocontrole, etc.) para tentar manter-se bem (manter o rumo e esperar o furacão passar). Uma das formas que pessoas resilientes usam para enfrentar seus problemas é ter "estratégias de enfrentamento". Essas estratégias passam por alterações de situações concretas (ex: arrumar um segundo emprego para ter mais dinheiro, fazer artesanato para se distrair) ou por buscar significar de forma diferente como se sente sobre uma situação (pensar que passar pelo sofrimento faz parte do plano de Deus, bucar ver o lado bom).

sábado, 29 de setembro de 2012

Mas eu não durmo sem o remédio

"Mas eu não durmo sem o remédio" essa frase é tão comum hoje em dia. Essa e outras. Há remédio para tudo, tudo é rápido. Tudo tem que ser imediato.

Sempre imagino como as pessoas de hoje lidariam com um mundo em que uma distância de 180 km (tipo Uberaba - Ribeirão Preto) era percorrida em três dias, a cavalo.

A insônia não é uma patologia moderna. Sua intensificação é. O mundo ESTÁ rápido e todo o tempo temos a sensação de perder algo, de deixar de fazer uma coisa muito importante. Pra compensar, comemos rápido, tomamos banho pensando em outra coisa, dormimos pouco (e mal).

Nesse contexto, os remédios para dormir e os antidepressivos tornaram-se companheiros inseparáveis das pessoas. No passado isso gerava 2 problemas: dependência física e emocional. A medicação atual (salvo raras exceções) não causa dependência física, mas a emocional permanece. Após poucas noites regadas à rivotril e companhia, a pessoa se convence que não mais dormirá sem eles. Fica tão agitada na noite que resolve tentar dormir sem a medicação que realmente não dorme e isso sustenta a crença de que sempre precisará do remédio. Cuidado com essa forma de pensar, remédios são bengalas úteis, mas algo além deles precisa ser feito, pra que, um dia, você não precise mais de uma bengala. Considere hidroginástica, pilates, yoga (pra ansiosos parece aterrador, mas é fantástica), etc.

sábado, 22 de setembro de 2012

Equilíbrio

Os budistas acreditam no valor do "meio termo". Muitos testes de personalidade têm seus melhores resultados fora das faixas extremas. Extremos gastam energia demais e o corpo desvia essa energia do sistema imunológico, levando ao adoecimento. Cuidado com os extremos!

Trabalhar é bom, se preocupar é necessário, farrear é indispensável, mas conciliar tudo é o segredo para manter a saúde mental.

Retire um período ou um dia em sua semana e dedique-o a fazer algo desnecessário, que você realmente goste. Essa válvula de escape fará uma real transformação em seu cotidiano.

Pra fechar nossa rápida conversa de hoje, fiquem com a letra de uma das músicas mais sábias que já ouvi: Incompatibilidade.


                                   Incompatibilidade
                                                          (Oswaldo Montenegro)

E bate louco, bate criminosamente
O coração mais do que a mente, bate o pé mais do que o corpo poderia
E se você mentalizasse na folia
Sabe lá se não seria a solução prá de manhã pensar melhor
E caso fosse a incompatibilidade entre o corpo e consciência
Iria desaparecer, você não vê
Como o corpo preparado pode ser iluminado
Como a luz de uma fogueira que precisa se manter
E atingido pela plena consciência
De que o corpo em decadência faz a tua consciência esmorecer
Pelos poros elimina-se o que o corpo não precisa
E não precisa pra pensar e abdicar esse prazer
Se você dançar a noite inteira não significa dar bobeira
De manhã se alienar ou esquecer
É a busca do supremo equilíbrio, num processo inteligente sua mente clarear sem perceber
E a intelectualidade
Pode Dançar sem receio
Descanso é pra alimentar
E trabalhar sem anseio
Eu tô olhando pra ponta
Mas não esqueço do meio
Quem acha o corpo uma ofensa
Falo sem demagogia
Pode dançar essa noite
E amanhã pensar quem diria
Quem não entendeu eu lamento
Quero que entenda algum dia aaahhhhhh
E bate louco bate criminosamente...


Fonte: http://letras.mus.br/oswaldo-montenegro/47881/

sábado, 25 de agosto de 2012

Tratamentos de humor

Como profissional de saúde mental já atendi em consultório vários casos de transtornos de humor. Estão incluídos nesses transtornos a depressão, transtorno bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), entre outros.

Um número grande de pessoas sofrem com esses transtornos em seu cotidiano, algumas buscam acompanhamento apenas medicamentoso e seguem suas vidas enfrentando dificuldades. Entre os três citados acima o transtorno bipolar é o que mais carece de acompanhamento medicamentoso, geralmente feito com Lítio, para ajudar no equilíbrio da química cerebral. Os estudos sobre os outros dois - depressão e TOC - mostram que o medicamento inibe os sintomas, mas somente uma associação com psicoterapia evita o retorno dos episódios a longo prazo.

Entendam isso, algo levou ao desenvolvimento do transtorno e o medicamento não vai te ajudar a descobrir e alterar essa causa, ele é um paliativo, uma "bengala" necessária por um tempo pra te ajudar a voltar a andar sozinho. Nem todas as pessoas com depressão ou TOC precisam de medicamento, mas se precisarem, espero que não tenham preconceitos tolos. Buscar ajuda - seja a que for - é lutar por quem mais vale a pena: você mesmo.

Com relação a psicoterapia, existem diferentes abordagens terapêuticas em Psicologia. Certamente se existe a suspeita de um transtorno de humor e você buscar o auxílio de um terapeuta de abordagem Cognitivo-Comportamental ou de um Analista do Comportamento ele incluirá como parte do seu tratamento a realização de caminhadas ou outro exercício aeróbico. Essas práticas, além de auxiliar a manter a saúde física, contribuem para a regulação da química cerebral, ajudando a manter o humor mais estável.

No caso da depressão, o profissional procurará localizar pensamentos automáticos (aqueles que surgem sem que você pense sobre um assunto) e as crenças que existem por trás desses pensamentos e que levam a comportamentos disfuncionais (ex: imaginar que ninguém se importa com você, mas se alguém te liga você não atende o telefone). O terapeuta buscará, ainda, encontrar atividades que no passado foram prazerosas para o cliente e que possam ser feitas no presente, aumentando o círculo de contatos da pessoa e sua chance de voltar a se sentir bem. É prática corriqueira nas duas abordagens passar "tarefas de casa", que consistem em alguma atividade ligada ao caso de forma direta ou indireta, que vai ao longo do tempo auxiliando no tratamento.

O acompanhamento de TOC exige sessões mais estruturadas, em que o terapeuta pode precisar induzir a manifestação de alguns sintomas físicos durante a sessão para ter a chance de trabalhar com a "descatrastofização" das sensações. Por exemplo, todos sentimos o coração acelerado se subirmos uma escada correndo, mas pra alguém com TOC essa sensação pode remeter diretamente a morte e ser suficiente pra começar uma crise. Quando se localiza os pensamentos eliciadores das crises, começasse um trabalho de "dessensibilização sistemática", gradual e ponderado, até que as crises sumam e as crenças sejam alteradas.

Todos os transtornos de humor são tratáveis e para a maior parte das pessoas há remissão completa dos transtornos após o acompanhamento.

O mais importante é: VOCÊ NÃO PRECISA SUPORTAR TUDO SOZINHO, BUSQUE AJUDA.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

X EMAP

Já se inscreveram no X Encontro Mineiro de Avaliação Psicológica?

Se liguem no site (e nos prazos): http://www.emapminas.com.br

Experiências que levam a pensar....

Ontem estive no programa Sem Censura (TV Brasil), para divulgar o livro que organizei "Vivências em Saúde Mental". Em conversa de bastidores com o Dr. Leonardo Palmeira e durante o programa e pelas perguntas enviadas por e-mail fiquei pensando em algumas coisas: quase todos tem um amigo ou familiar com transtorno mental; esquizofrenia ainda é um mito, algo pouco conhecido, embora muito falado entre nós; as oportunidades de familiares e pessoas com transtornos mentais falarem sobre suas vivências ainda são muito raras...

Essas questões são muito fortes pra mim. São pontos em que um profissional de saúde mental pode fazer a diferença, poderia auxiliar a tirar essas dúvidas, ajudar a construir estratégias pra enfrentar as situações, a desenvolver resiliência. Não consigo entender porque há esse distanciamento entre os diferentes atores sociais desse fenômeno. De verdade, eu quero trabalhar para mudar essa situação.

Estou começando a preparar um novo projeto, especialmente destinado as dúvidas sobre saúde mental. Caso alguém que lê o blog acredite que pode colaborar, com dúvidas ou respostas, peço que colaborem.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Congresso Mineiro de Neuropsicologia

A Neuropsicologia é uma área que estuda a relação cérebro-comportamento e tem ganhado espaço nas últimas décadas.

Em 2012 acontecerá em Belo Horizonte (MG) o I Congresso Mineiro de Neuropsicologia.

Fica a dica: http://cmneuropsi.wordpress.com/

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A história de dona Maria

Texto escrito pela psicóloga Mônia Aparecida Silva, mestre em Saúde Mental pela UFSJ e gentilmente cedido para postagem.


Sou uma pesquisadora de campo em saúde mental. A cada dia que penso isso, percebo que estou no caminho certo. Caminho difícil, mas cheio de expectativas e desafios que me instigam a seguir.  Os ganhos atravessam a fronteira do profissional, são ganhos pessoais acima de tudo. Como foi com a experiência que tive ao entrevistar uma senhora de quem hoje gostaria de contar parte da história: dona Maria.
Dona Maria é uma senhora muito simpática, daquelas que lembram as avós carinhosas que muitos de nós temos ou tivemos. Recebeu-me como se eu já fosse de casa e pegou no meu braço de uma maneira tão familiar que senti como se a conhecesse há anos.  O motivo da minha visita era o filho da Dona Maria: o Serginho. Eu estava realizando uma pesquisa sobre os efeitos do tratamento psiquiátrico na vida do paciente, de acordo com a visão do familiar. Serginho fazia tratamento em um serviço de saúde mental público. Já na adolescência, ele apresentou os primeiros sintomas da esquizofrenia e a gravidade do transtorno foi aumentando ao longo do tempo.
Dona Maria tinha uma família grande, mas Serginho foi o único a continuar morando com ela. Os outros filhos se casaram e continuaram morando por perto, mas sem assumir responsabilidades diretas pela mãe ou pelo irmão. Apesar da idade avançada, Dona Maria não abria mão das tarefas da casa, nem do cuidado ao filho, por mais que às vezes ficasse difícil lidar com ele durante as crises. Ele ficou alguns anos internado em hospital psiquiátrico e ficou com os resquícios da internação prolongada. Depois que voltou para casa, e após a desativação dos manicômios, Dona Maria passou a cuidar sozinha dele, mesmo naqueles períodos críticos, em que um tratamento mais intensivo realmente se fazia necessário. Dona Maria não teve formação escolar alguma, nunca foi inserida em grupos de formação para famílias de pacientes psiquiátricos, nem ao menos recebeu instruções para lidar com Serginho em momentos de crise. Entretanto, desenvolveu um aprendizado baseado em sua experiência, com a vida, para lidar com o filho, mesmo nos momentos mais difíceis. Por várias vezes, durante a entrevista, ela falou “mas eu nunca encostei uma mão no Serginho”, ao contrário dos irmãos que muitas vezes perderam o controle, partindo até para a agressão.
Quando Serginho recebeu alta de sua última temporada em uma instituição psiquiátrica, ele começou a frequentar vários bares do bairro em que morava.  O fato de ele beber constantemente complicava ainda mais a sua situação e aumentava as preocupações de Dona Maria. Às vezes, Serginho não chegava em casa e tinha que ser catado pela mãe caído nas ruas da cidade. Outras vezes, ele chegava ferido, por cair sobre as pedras que calçavam as ruas. Mas o pior era que, além da bebida alcoólica o deixar agressivo, ela também impedia a recuperação de Serginho. Dona Maria era quem controlava as finanças do filho, e após um dia, em que ele tinha bebido muito e quebrado parte da casa, sua mãe tomou uma decisão. Após ter recebido o salário do filho aquele mês, ela foi de bar em bar, pagou todas as contas que ele tinha, como sempre fizera, e deu um aviso claro e definitivo aos donos dos bares: “a partir de hoje, tudo o que vocês venderem fiado para o meu filho ficará fiado, porque eu não pago nem mais uma conta de bebidas do Serginho”. E assim, em poucas semanas, o filho parou definitivamente de beber.   
 Serginho muitas vezes teve delírios de identidade, acreditando ser outra pessoa. Dona Maria contou que, certa vez, ele estava totalmente convencido de que era Juscelino Kubitschek, e que tinha uma missão urgente em Brasília. Daí ele começou a juntar suas coisas, procurar dinheiro e marcar a viagem no aeroporto da cidade, que naquela época nem existia. Ele estava realmente decido a sair, ansioso e nervoso pelo atraso que certamente poderia fazer com que ele perdesse o voo. Mas Dona Maria tinha um truque: procurou Serginho calmamente e disse que tinha se esquecido onde guardou o dinheiro. Portanto, Serginho, ou melhor, Juscelino, tinha uma missão mais importante naquele momento: ficar e ajudar a mãe a procurar o dinheiro perdido. Além do mais, os bancos só abririam no dia seguinte, e esperar, então, era a melhor coisa. Mas Juscelino certamente cumpriria os compromissos em Brasília, no dia seguinte, pois o voo sairia bem cedinho. E assim Dona Maria conseguia acalmar o filho, que no outro dia não mais se lembrava de nada. E ela atuava com perfeição. Mas o mais curioso, e mais surpreendente eu diria, e que ela não trazia sofrimento na voz, nem lamentava pela condição do filho. Só temia o momento em que viesse a lhe faltar. E continuava a contar as histórias com o sorriso aberto. E eram muitos os causos, como ela gostava de dizer. Talvez pudesse ficar lá durante dias e ela teria coisas para contar sobre o Serginho e sobre a sua forma surpreendente de não maltratá-lo, demonstrando seu imenso amor.
Já faz algum tempo que não tenho notícias dessa família. Talvez não mais tenha. Sei que enquanto viverem, Serginho terá suas recaídas, e sua mãe, humilde heroína, vai manejar, de uma maneira inteligente e corajosa, os comportamentos do filho para que ele não prejudique a si mesmo ou aos outros. Entretanto, guardarei essa memória, e se me concentrar, ainda consigo ouvi-la dizendo, com aquela voz mansa as mesmas palavras: “mas eu nunca encostei uma mão no Serginho”.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Lançamento do livro: Vivências em Saúde Mental


A saúde mental é um tema amplo, que gera muitas dúvidas, ainda envolto em desinformação, mitos e medos e com saberes fragmentados. O conhecimento dos profissionais de saúde costuma ficar preso nos serviços de saúde ou em artigos científicos publicados para o meio acadêmico, que pouquíssimas pessoas lêem.

As famílias têm vergonha de falar sobre a doença mental, pois muitos sentem como se tivessem feito algo errado e por isso alguém de sua família adoeceu. Com isso perdemos muitas valiosas contribuições. As experiências dos familiares, as soluções que arranjam para lidar com situações de crise, suas alegrias, frustrações ou mesmo os problemas, preconceitos, falta de apoio dos profissionais e preocupações que enfrentam terminam sendo assuntos deixados em segundo plano ou nunca discutidos.

Com as pessoas com transtornos psiquiátricos a situação chega a ser ainda pior. Raramente eles recebem a voz que merecem para falar sobre suas próprias vivências. Lembro de uma história que um paciente me contou.

Ele, seu acompanhante terapêutico e o médico de referência deveriam ir à casa dele para conversar com sua família. Sairam do CAPS (Centro de Apoio Psicossocial) em que ele recebia tratamento durante o dia e enquanto os dois profissionais que o acompanhariam viravam para um lado e andavam, ele tentava dizer ao médico e ao acompanhante que eles estavam indo para o lado errado. Ninguém prestou atenção. Ele chamou, apontou, parou de andar e ninguém prestou atenção. Em determinado momento, ele perde a paciência e grita: "Eu até sou doido, mas eu sei onde eu moro e é para o outro lado". Pode parecer anedótico, mas representa bem a forma como não damos ouvidos a quem consideramos incapaz (sejam pessoas com transtornos psiquiátricos, crianças, idosos, etc.).

Ao longo do meu trabalho, fui percebendo esse descompasso entre os diferentes personagens envolvidos com a saúde mental. Foi então que surgiu a ideia de convidá-los a escrever sobre suas experiências e reunir esses diferentes lados da história em um mesmo lugar, criando a possibilidade de uma perspectiva diferente de compreensão sobre a saúde mental.

Convidei profissionais, pesquisadores da área da saúde mental, familiares cuidadores e pessoas com transtornos psiquiátricos para falar sobre suas vidas e sobre as coisas que já viram ou viveram desde que estão envolvidas com a saúde e com o adoecimento mental. Esse material foi compilado em um livro, chamado "VIVÊNCIAS EM SAÚDE MENTAL: teoria, práticas e relatos", que será lançado pela editora Juruá, no próximo dia 09 de setembro.

Terei muito prazer em recebê-los no lançamento!

Os dados do evento seguem abaixo:

Evento de Lançamento: I Colóquio Internacional Winnicotiano / IV Colóquio Winnicott do Triângulo Mineiro


Local: Saguão do Auditório B do CEA da Universidade Federal do Triângulo Mineiro
          Avenida Frei Paulino, nº 30 - Uberaba (MG)


Data: 09/09/2011


Horário: 21h50m


***** Caso alguém queira adquirir o livro autografado, basta entrar em contato comigo, por meio do e-mail: sa.barroso@yahoo.com.br *****

sábado, 21 de maio de 2011

Treinamento de Habilidades Sociais: um auxílio para a reinserção dos pacientes psiquiátricos

Com a reforma psiquiátrica, houve maior preocupação com o estudo dos fatores que levam os pacientes desinstitucionalizados, ou seja, os pacientes que saem dos hospitais psiquiátricos, a terem uma reinserção social bem sucedida. Muitos são os fatores que contribuem para esta reinserção nas comunidades e  o treinamento de habilidades sociais é um qdos fatores que vem recebendo destaque.



O conceito de  habilidades sociais diz respeito ao conjunto de desempenhos apresentados  pelo sujeito diante de uma interação social, sempre considerando a dimensão situacional e cultural. As habilidades sociais implicam em três tipos de componentes: os  verbais (elogiar, fazer pedidos, agradecer, recusar), os não-verbais (sorrisos, gestos, movimentos de cabeça, olhares) e os paralingüísticos (latência e duração da fala, tempo de silêncio, etc.). Todos  estes componentes caracterizam o desempenho social do sujeito e déficits em um ou mais desses componentes  podem comprometer o funcionamento social do indivíduo. Outro aspecto abordado no treinamento de habilidades sociais relaciona-se à assertividade, que é a capacidade que tem o indivíduo de se expressar, afirmando seus direitos sem, no entanto, desrespeitar o direito dos outros.


A utilização deste treinamento de habilidades sociais, ou seja, ensinar indivíduos a interagir melhor com outros indivíduos pode ajudar qualquer pessoa, tenha ou não um transtorno psiquiátrico. O treinamento de habilidades sociais, como uma das medidas para auxiliar no processo de reinserção  social de pacientes, vincula-se ao fato de que os pacientes psiquiátricos têm uma dificuldade acentuada de interagir com outros indivíduos de sua comunidade, fato que dificulta a sua reintegração na comunidade. Esta dimensão tem sido enfatizada, porque a reinserção social dos portadores de transtornos mentais se torna mais difícil justamente devido a uma das grandes limitações ou dificuldades desses pacientes, que é a de entrar em contato com os indivíduos de sua comunidade e conseguir manter relacionamentos sociais satisfatórios.

Foi constatado que o número e a gravidade das reospitalizações dos portadores de transtornos mentais desinstitucionalizados diminuem quando o nível de competência social é aumentado por meio do treinamento das habilidades sociais. O que se explica pelo fato que o treinamento de habilidades sociais diminui a vulnerabilidade ao estresse e reduz o risco de sintomas graves, otimizando o ajustamento social do paciente.

Várias pesquisas demonstraram que um dos fatores capazes de minimizar o impacto da deficiência na competência social dos pacientes psiquiátricos e, com isso, auxiliar sua reinserção social, é o treinamento das habilidades sociais necessárias aos pacientes em suas interações sociais cotidianas no meio onde vivem.Existem diversos psicólogos qualificados para realizar esse treinamento, que deveria ser considerado entre as opções terapêuticas para os pacientes.

domingo, 8 de maio de 2011

Regulamentação da Saúde Mental no Brasil

Durante muito tempo os serviços psiquiátricos eram manicomiais, o que significa dizer que sempre que alguém desenvolvia sintomas de adoecimento mental, era enviado para um manicômio, para receber atendimento médico.

Os relatos de maus tratos cometidos contra os pacientes e a falta de efetividade do tratamento fez com que um movimento mundial se iniciasse querendo alterar essa política de atendimento. O movimento antimanicomial iniciou-se na Europa, na década de 1950 e ganhou força especial na França e na Itália. No Brasil o movimento antimanicomial iniciou-se um pouco mais tarde, na década de 1980, foi marcado pela explicitação da situação precária de vida dentro dos manicômios e do impacto social negativo da política manicomial.

A luta foi longa e difícil, mas culminou com a alteração da política pública para a saúde mental. A promulgação do novo modelo de atendimento psiquiátrico brasileiro ocorreu com a Lei 10.216, conhecida como “Lei Paulo Delgado”, promulgada em 06 de abril de 2001.

O novo modelo de atendimento psiquiátrico adotado no Brasil assumiu um caráter comunitário e regionalizado. O foco do tratamento foi alterado do manicômio para os Centros de Atendimento Psicossocial (CAPS), da internação de longa permanência para atendimento ambulatorial, visando a permanência dos pacientes com suas famílias e com a comunidade. Esse modelo também é marcado pela implantação de outros serviços de saúde comunitários, tais como: residências terapêuticas, hospitais-dia, leitos psiquiátricos em hospitais gerais, acompanhantes terapêuticos, entre outros.

Com a permanência dos pacientes na comunidade criou-se a preocupação com sua inserção ou reinserção social. Criou-se também a necessidade de conscientização da comunidade sobre o adoecimento mental, a formação de profissionais especializados para atender as necessidades dos pacientes e de suas famílias e novos estudos sobre as vivências dos pacientes e cuidadores. Muito já foi conquistado, a desinstitucionalização dos pacientes internados em manicômios e a constatação de que eles podem viver em comunidade e receber atendimento representam ganhos importantes. Mas o caminho para a real aceitação das diferenças em nossa sociedade ainda será longo e depende de cada um de nós.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

[Neuropsicologia] O cotidiano e o adoecimento

Que me permita o poeta Leminsk, emprestar um de seus haicais:

"...de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito..." (P.Leminski)

 O mundo atual é rápido, globalizado, exigente. Você deve fazer coisas, saber coisas, acontecer. Dorme-se menos de 5 horas por noite porque temos que trabalhar, estudar, fazer atividade física, nos deslocar para trabalhar/estudar, fazer inglês, francês, alemão, culinária, namorar, cuidar dos filhos, passear com o cachorro, ler (pois é preciso ter cultura), limpar a casa ....

A evolução do mundo foi muito mais rápida que a evolução da espécie (figurativamente falando). Nosso corpo não consegue gerar energia para acompanhar o ritmo de trabalho que a vida moderna  nos impõe. A espécie não está adaptada a nova carga de trabalho que a invenção da luz elétrica permitiu, fazendo a noite quase tão funcional quanto o dia. Da mesma forma que a agitada vida das grandes cidades cobra seu preço.

Tentamos acompanhar, mas as noites mal (ou não) dormidas esgotam a energia destinada a nos manter bem e, graçasa um mecanismo evolucionário que já foi útil para a espécie se manrter viva, a energia extra necessária é retirada do sistema imunológico.

Vale a mesma regra para a vivência de experiências emocionalmente difíceis ou com o excesso de paixão. A energia extra vem do sistema imunológico. Assim, rapidamente você encontra pessoas que adoecem devido à sobrecarga de trabalho ou ao chamado estresse emocional. As manifestações mais comuns de adoecimento são gripes, dores pelo corpo e queda de cabelo.

O cérebro ordena ao corpo gastar sua energia priorizando os sistemas vitais. Durante períodos mais calmos a disponibilidade ampla. Diante de situações de estresse emocional, ele empresta energia dos sistemas menos utilizados naquele momento e a desvia para manter nossas funções básicas, como o estado de vigília. Como o sistema imunológico permanece em estado de prontidãp, mas atua efetivamente apenas quando somos atacados, ele é o ponto privilegiado para obter a energia faltante e esse ciclo, que em nossos dias está se tornando vicioso, culmina em adoecimento.

É necessário equilibrar a produção e o gasto de energia do corpo. É preciso atentar aos sinais do corpo e supri-lo de alimento e sono. Só assim conseguiremos um ritmo de vida mais saudável e com maior qualidade.



segunda-feira, 18 de abril de 2011

NEUROPSICOLOGIA - Phineas Gage e o estudo da personalidade

Os interessados por Neuropsicologia certamente já ouviram falar do caso Phineas Gage. Esse é um dos precursores dos estudos modernos sobre a influência da biologia na personalidade e um dos estudos de caso clínico mais utilizados em situações de ensino.

No caso em questão, um operário que auxiliava na construção de uma ferrovia assentando trilhos sofreu um acidente (em 1848) em que uma das peças de ferro que ele deveria fixar aos trilhos atravessou seu crânio, entrando pela lateral do rosto e saindo no topo da cabeça,  lesando seu Lobo Frontal. Ao contrário do que se esperaria, suas funções básicas de vida não foram afetadas. Gage foi sozinho ao hospital e depois que seu ferimento foi tratado, continuou andando, falando, comendo, mas começou a apresentar alterações de personalidade.

Passou a mostrar um gênio forte e impulsivo, que antes não o caracterizavam. Passou a envolver-se em bebedeiras, jogatinas, ofender pessoas, deixou de trabalhar e passou a viver de apresentações circenses, em que mostrava a barra de ferro que havia atravessado sua cabeça. Como sua lesão foi unicamente no Lobo Frontal, os pesquisadores e médicos começaram a relacionar essa região cerebral com sua alteração de comportamento, transpondo depois esse mesmo tipo de relação para as atitudes e escolhas de vida que fazemos e que se mantém relativamente estáveis no tempo, o que, em algumas teorias, é também chamado de personalidade.

A hipótese da relação entre o Lobo Frontal e a personalidade ganhou força com a repetição de padrões como o visto em Phineas Gage em outros casos em que as pessoas sofriam lesões no Lobo Frontal. Hoje, essa já é uma relação solidamente constituída para a Neuropsicologia.

O crânio de Phineas Gage permanece em exposição e os desdobramentos dos estudos iniciados com esse caso ganharam novo fôlego com o desenvolvimento de novas técnicas de exame cerebral por neuroimagem. Atualmente é possível ver as regiões implicadas nos processos mentais e mensurar o consumo de glicose implicado nas atividades realizadas. Com isso, aos poucos os cientistas vão buscando desvendar o funcionamento cerebral e entender como esse órgão interage com o mundo social para moldar quem somos.



Para mais informações sobre o caso Phineas Gage, recomendo:

Macmillan, M. A contribuição de Phineas GAge para a cirurgia do cérebro. Australian Journal of the History of Neurosciences, 5(2), 1995.

quarta-feira, 16 de março de 2011

E quem cuida dos cuidadores?

Minha prática na psicologia é marcada por uma preocupação com os esteios. Enquanto a maior parte dos profissionais e dos trabalhos científicos existentes falem sobre pacientes psiquiátricos, crianças abusadas e adolescentes em situações de risco, meus olhos profissionais sempre estiveram voltados para os personagens que recebem papel secundário: os familiares que cuidam de alguém com problemas (físicos, psicológicos ou emocionais), para a equipe de profissionais de saúde, etc.. O tópico de hoje é sobre os cuidadores familiares.

Sabem o ditado "Quem não chora não mama"? Sempre o percebi como verdadeiro e como fonte de preocupação. Alguém adoece em nossas famílias (ou se divorcia, ou perde o emprego) e as atenções se voltam para esta pessoa. Paramos nossas atividades cotidianas e cuidamos dessa pessoa, porque é o percebemos como correto e o que aprendemos como socialmente aceitável. Nesse processo de cuidar (que pode ser pontual ou durar uma vida inteira) a tendência é que quem assuma o papel de cuidador se esqueça de si mesmo e que o restante dos familiares também passe a negligenciar os sonhos e as necessidades dos cuidadores. É como se ao assumir responsabilidades com alguém se deixasse de ser uma pessoa para ser uma função: cuidador.

Quando alguém assume sozinho uma situação de cuidador costuma não ter muitas pessoas com quem contar. Os familiares e amigos se habituam a deixar as questões para que "o cuidador" as resolva. Da mesma forma essa pessoa que assume o papel de cuidador compra para si as obrigações de estar sempre disponível e de dar conta de prover todos os cuidados que esperam dele sem incomodar mais ninguém. Ao assumir esse papel, muitas pessoas se impõem grilhões que os levam a abandonar vida pessoal, sonhos próprios, amigos e inúmeras oportunidades.

Não entendam mal, não estou fazendo uma apologia ao egoismo.O ponto aqui não é abandonar familiares e amigos que estejam em dificuldade ou sejam dependentes para que nossas vidas não sejam alteradas, é não abandonar nossas vidas. Quando um cuidador se esquece que antes de qualquer outra coisa ele é uma pessoa com direitos e sonhos, ele inicia um processo de autodepreciação e adoecimento que pode prejudicá-lo muito e que tende a se intensificar com o passar dos anos. Ao se esquecer que somente alguém em bom estado físico e psicológico consegue realmente auxiliar alguém começamos um processo de construção de um futuro-novo-doente. Quem cuidará de dois (você e a pessoa de quem você já cuidava) quando você adoecer?

É difícil fazer com que os familiarese realmente dividam as tarefas do cuidado. Se duvidam disso, pensem em famílias saudáveis; as tarefas de cuidado dos filhos são igualmente divididas entre o pai e a mãe?

Ao se tornar cuidador de alguém sua vida será reestruturada, isto é fato. Da mesma forma que ela foi reestruturada quando você começou a trabalhar/estudar, mudou de cidade, casou, teve filhos, etc. Todos já vivenciamos várias reestruturações em nossas vidas. É necessário buscar pontos de equilíbrio. Momentos em sua rotina que pertençam a você e nos quais a forma como você está se sentindo seja considerada importante. E não, o momento do seu banho não conta, a não ser que seja algo não-automático e que você não faz por obrigação e nem usa para descarregar sua sobrecarga emocional chorando.

Sempre me compadeci das pessoas ditas fortes. Por receberem e assumirem esse lugar eles aprendem a sofrer calados e a não buscar ajuda. A tarefa de prover cuidados a alguém é difícil, a tarefa de se perceber como também merecedor de cuidados e de conseguir algum tempo para cuidar de si é igualmente difícil. Pobres pessoas ditas fortes. Nesse mundo em que apagamos fogos imediatistas, que é o mundo de quem se torna cuidador em tempo integral, a vida gira ao redor da pessoa que recebe cuidados e conseguir manter uma distração prazeiroza, tomar contato com você mesmo e com amigos ou tirar algum tempo para sonhar torna-se fútil na percepção dos cuidadores. Com isso a vida dos cuidadores vai perdendo a cor e abre-se espaço para que a amargura e o rancor se aproximem.

Amargura mata! Rancor invenena! Tristeza adoece!

Cuidadores que conseguem algum espaço e tempo próprios são cuidadores igualmente dedicados e muito mais felizes. Convido a todos a pensar sobre o tempo e a forma como tem feito esse investimento no próprio bem-estar e em lazer, especialmente se você tem obrigações de cuidador. Acreditem, vocês tem esse direito. Acreditem, vale a pena. Acreditem, isso fará de você um cuidador melhor, pois suas atividades virão marcadas com o sabor da escolha e não o amargor da imposição/obrigação.

Proponho que os cuidadores que lerem esse post (sejam mães, pais, cuidores de pessoas com necessidades especiais, etc.) selecionem uma atividade de lazer/prazer e a executem ao longo da semana. Pode ser tomar um suco X por prazer, assistir um programa de TV que você normalmente não se permite, sair de casa por algum tempo, ligar para alguém querido, comer algo que você goste, comprar algo. Qualquer coisa que você queira fazer mas não faça normalmente e não algo que você precise fazer.

Nessa primeira tentativa eu imagino que você se sentirá estranho e culpado, insista. Faça novamente algo por você na segunda semana. Ao fim do primeiro mês sua autopercepção e o tempo que você passa cuidando de outros provavelmente começará a ser ressignificado e para melhor. Isso é investir em saúde. Isso é investir em qualidade de vida. Isso é entender que ser cuidador de alguém é parte da sua vida e não é a única coisa que te define como pessoa ou merecedor de afeto. Teste, faça algo por você mesmo e compartilhe conosco depois.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Tristeza de Feriado (Depressão Sazonal)

Feriados são feitos para quebrar a rotina da vida e nos dar tempo para fazermos o que queremos, mas nos falta tempo. Se eles tem representado mais tristeza do que descanso em sua vida, reflita sobre o que está acontecendo...


Muita gente fica triste durante os feriados, sendo que o natal costuma ser a época que desperta tristeza em um maior número de pessoas. Este é um fenômeno comum, mas pouco comentado e que faz com que muita gente se sinta inadequada, especialmente ao comparar a tristeza que sentem com a alegria de outras pessoas com quem convivem nos feriados. Existe até uma nosologia (categoria de diagnóstico) chamada de Depressão Sazonal, para nomear essa sensação, pois essa tristeza pode ser um tipo de depressão que surge apenas em épocas específicas do ano.


Feriados são momentos propícios para pensar no que já conquistamos e no que nos falta. São momentos em que comparamos nossas vidas com as de outras pessoas que conhecemos - coisa que fazemos com muito pouca isenção e objetividade, as vezes deturpando o que vemos - e que podem nos levar a uma percepção negativa de nossa vida e conquistas.

Quando se está vivenciando essa tristeza de feriado, vemos a alegria das pessoas no carnaval, por exemplo, e não conseguimos senti-la, o que aumenta nossa sensação de deslocamento e, por consequência, nossa tristeza. As festas de fim de ano potencializam essa sensação, pois demandam maior envolvimento familiar e culturalmente convidam a um balanço do que fizemos ao longo do ano. Como não somos senhores absolutos dos acontecimentos de nossas vidas, nem todos os anos podemos nos reinventar ou atingir nossas metas próprias ou as metas familiares para nós e tais questões podem soar como "fracasso" quando não se analisa a vida de uma forma mais neutra e atenta, contribuindo para que nos sintamos mal ao parar para pensar, gerando amargura e tristeza.


Não há um remédio ou tratamento mágico para quem sofre com este tipo de problema. Existe é a necessidade de verificar se é isto o que ocorre com você e buscar ajuda para lidar com o sentimento de insatisfação e não-aceitação própria que é a fonte geradora desta espécie de problema. Nesse processo um terapeuta pode ajudar. Mas não espere o próximo feriado para buscar ajuda, pois ninguém precisa sofrer sozinho e também porque leva um certo tempo para que se consiga lidar melhor com esse tipo de depressão.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Por que tantos delírios de cunho religioso?

Quem trabalha com pacientes psiquiátricos que deliram estão acostumados a conhecer vários pacientes que acreditam ser anjos, enviados pelo Senhor, o próprio Jesus, ou santos dos mais diversos.

Existem alguns estudiosos que tentam entender essa fixação com temas religiosos como conteúdo dos delírios, mas uma boa explicação pode ser encontrada em nossa cultura.A América Latina como um todo e o Brasil de forma especial são ambientes altamente religiosos, com religiões diversas e que se fundem em muitos aspectos, mas somos um povo crente. O índice de ateus no Brasil é um dos mais baixos do mundo. Essa realidade se reflete na forma como conduzimos nossas vidas e até mesmo na forma como adoecemos.

Será difícil encontrar uma casa sem um crucifixo ou uma bíblia, torá, etc. Igualmente difícil será encontrar uma família que nunca fez uso das ameaças de castigo divino como forma de controlar o comportamento de um filho. "Papai do céu não gosta de menino que faz pirraça", "Deus vê tudo o que você faz e castiga se fizer coisa errada", esses são meros exemplos de como a religião, e a presença imaterial de alguém que te vigia e pode ser bom ou ruim para você, vai sendo infundida em nossas vidas e, de forma sutil, vai assumindo um lugar de destaque.


Enlouquece quem pode e não quem quer. A frase parece estranha, mas ao longo dos anos os estudos sobre adoecimento mental vem monstrando que algumas pessoas tem um nível de tolerância aos problemas mais baixo que a maioria e que estas são as mais propensas a desenvolverem um transtorno mental. Situações das quais a maior parte das pessoas sairiam relativamente "inteiras", como o adoecimento de um parente, a perda de um emprego ou o fim de uma relação, podem ser capazes de iniciar uma crise piscótica em outras pessoas. Quando a crise surge, muitas das vivências do cotidiano são reinterpretadas de forma fantasiosa e o doente pode ver razões ocultas para coisas que aconteceram em sua vida. Esse é um cenário muito propício para que os ensinamentos religiosos a que somos submetidos desde muito cedo surjam como parte dos delírios em formação.

Essa ideia pode ser corroborada quando se analisa os delírios de pacientes de outras culturas, em que os temas mais frequentes são, também, os valores mais fortes daquelas culturas. Estou tentando dzer que não há muitos Napoleões espalhados pelo mundo hoje em dia, já o número de astros de rock subiu consideravelmente. Os delírios terminam sendo um espelho dos valores que certa cultura torna importantes em dado momento histórico e formas muito ricas de interpretar tais sociedades.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Começando uma história

Nunca pensei em ter um blog.

Francamente, acho que já passo horas demais em frente a um computador, mas na era digital, essa é uma boa ferramenta para atingir um maior número de pessoas e falar sobre temas relevantes, como combater os maus tratos contra animais, porque coca-cola light não tem gosto de coca-cola, discutir se tostines vende mais porque é fresquinho mesmo, ou sobre o tema que motivou esse blog: falar sobre saúde mental e adoecimento mental.

Existem tantos mitos sobre o assunto, tantas dúvidas, tantas teorias erradas sobre porque alguém perde a sanidade ou o que esperar de alguém com diagnóstico psiquiátrico que muita interessada pelo tema termina perdida.

Para piorar, na maior parte das vezes a TV presta um desserviço a quem quer entender melhor o assunto, pois mostra sempre pacientes como pessoas violentas, ou com habilidades absurdas (já viram algum filme com autistas em que eles não fossem "geniozinhos"?). Além disso, temos livros falando sobre o tema também, alguns bem famosos, que terminam nos tirando o sono e fazendo parecer que todos somos psicopatas à espera de nossa próxima vítima descuidada. Raramente ouvimos as histórias em primeira pessoa, quer dizer, poucos são os relatos de pacientes ou de familiares sobre suas experiências, no que elas se parecem e no que elas são únicas. Poucos são, também, os profissionais de saúde mental que falam sobre seu dia-a-dia de trabalho.

Como sou professora de Psicologia, ouço, as vezes, comentários de estudantes que me gelam o sangue, de tão carregados de preconceito ou de informações erradas sobre o que significa ter um transtorno mental. Não vou entrar nesse assunto agora, vou guardar para um outro momento.

Hoje termino recomendando a vocês um livro em que o autor é alguém diagnosticado como tendo esquizofrenia e onde ele fala abertamente sobre sua experiência com as internações psiquiátricas, bons e maus profissionais de saúde mental e sobre a vida de um paciente psiquiátrico. O livro chama "Anjo Carteiro: a correspondência da psicose" e a referência completa está no fim do post.

Espero que aceitem o convite deste blog para conversamos e que nos encontremos aqui para dar continuidade a essa história.

Referência:
BARROS, L. F. Anjo Carteiro: a correspondência da psicose. Rio de Janeiro: Imago, 1996.