domingo, 27 de fevereiro de 2011

Por que tantos delírios de cunho religioso?

Quem trabalha com pacientes psiquiátricos que deliram estão acostumados a conhecer vários pacientes que acreditam ser anjos, enviados pelo Senhor, o próprio Jesus, ou santos dos mais diversos.

Existem alguns estudiosos que tentam entender essa fixação com temas religiosos como conteúdo dos delírios, mas uma boa explicação pode ser encontrada em nossa cultura.A América Latina como um todo e o Brasil de forma especial são ambientes altamente religiosos, com religiões diversas e que se fundem em muitos aspectos, mas somos um povo crente. O índice de ateus no Brasil é um dos mais baixos do mundo. Essa realidade se reflete na forma como conduzimos nossas vidas e até mesmo na forma como adoecemos.

Será difícil encontrar uma casa sem um crucifixo ou uma bíblia, torá, etc. Igualmente difícil será encontrar uma família que nunca fez uso das ameaças de castigo divino como forma de controlar o comportamento de um filho. "Papai do céu não gosta de menino que faz pirraça", "Deus vê tudo o que você faz e castiga se fizer coisa errada", esses são meros exemplos de como a religião, e a presença imaterial de alguém que te vigia e pode ser bom ou ruim para você, vai sendo infundida em nossas vidas e, de forma sutil, vai assumindo um lugar de destaque.


Enlouquece quem pode e não quem quer. A frase parece estranha, mas ao longo dos anos os estudos sobre adoecimento mental vem monstrando que algumas pessoas tem um nível de tolerância aos problemas mais baixo que a maioria e que estas são as mais propensas a desenvolverem um transtorno mental. Situações das quais a maior parte das pessoas sairiam relativamente "inteiras", como o adoecimento de um parente, a perda de um emprego ou o fim de uma relação, podem ser capazes de iniciar uma crise piscótica em outras pessoas. Quando a crise surge, muitas das vivências do cotidiano são reinterpretadas de forma fantasiosa e o doente pode ver razões ocultas para coisas que aconteceram em sua vida. Esse é um cenário muito propício para que os ensinamentos religiosos a que somos submetidos desde muito cedo surjam como parte dos delírios em formação.

Essa ideia pode ser corroborada quando se analisa os delírios de pacientes de outras culturas, em que os temas mais frequentes são, também, os valores mais fortes daquelas culturas. Estou tentando dzer que não há muitos Napoleões espalhados pelo mundo hoje em dia, já o número de astros de rock subiu consideravelmente. Os delírios terminam sendo um espelho dos valores que certa cultura torna importantes em dado momento histórico e formas muito ricas de interpretar tais sociedades.

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