Os interessados por Neuropsicologia certamente já ouviram falar do caso Phineas Gage. Esse é um dos precursores dos estudos modernos sobre a influência da biologia na personalidade e um dos estudos de caso clínico mais utilizados em situações de ensino.
No caso em questão, um operário que auxiliava na construção de uma ferrovia assentando trilhos sofreu um acidente (em 1848) em que uma das peças de ferro que ele deveria fixar aos trilhos atravessou seu crânio, entrando pela lateral do rosto e saindo no topo da cabeça, lesando seu Lobo Frontal. Ao contrário do que se esperaria, suas funções básicas de vida não foram afetadas. Gage foi sozinho ao hospital e depois que seu ferimento foi tratado, continuou andando, falando, comendo, mas começou a apresentar alterações de personalidade.
Passou a mostrar um gênio forte e impulsivo, que antes não o caracterizavam. Passou a envolver-se em bebedeiras, jogatinas, ofender pessoas, deixou de trabalhar e passou a viver de apresentações circenses, em que mostrava a barra de ferro que havia atravessado sua cabeça. Como sua lesão foi unicamente no Lobo Frontal, os pesquisadores e médicos começaram a relacionar essa região cerebral com sua alteração de comportamento, transpondo depois esse mesmo tipo de relação para as atitudes e escolhas de vida que fazemos e que se mantém relativamente estáveis no tempo, o que, em algumas teorias, é também chamado de personalidade.
A hipótese da relação entre o Lobo Frontal e a personalidade ganhou força com a repetição de padrões como o visto em Phineas Gage em outros casos em que as pessoas sofriam lesões no Lobo Frontal. Hoje, essa já é uma relação solidamente constituída para a Neuropsicologia.
O crânio de Phineas Gage permanece em exposição e os desdobramentos dos estudos iniciados com esse caso ganharam novo fôlego com o desenvolvimento de novas técnicas de exame cerebral por neuroimagem. Atualmente é possível ver as regiões implicadas nos processos mentais e mensurar o consumo de glicose implicado nas atividades realizadas. Com isso, aos poucos os cientistas vão buscando desvendar o funcionamento cerebral e entender como esse órgão interage com o mundo social para moldar quem somos.
Para mais informações sobre o caso Phineas Gage, recomendo:
Macmillan, M. A contribuição de Phineas GAge para a cirurgia do cérebro. Australian Journal of the History of Neurosciences, 5(2), 1995.
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