Sou uma pesquisadora de campo em saúde mental. A cada dia que penso isso, percebo que estou no caminho certo. Caminho difícil, mas cheio de expectativas e desafios que me instigam a seguir. Os ganhos atravessam a fronteira do profissional, são ganhos pessoais acima de tudo. Como foi com a experiência que tive ao entrevistar uma senhora de quem hoje gostaria de contar parte da história: dona Maria.
Dona Maria é uma senhora muito simpática, daquelas que lembram as avós carinhosas que muitos de nós temos ou tivemos. Recebeu-me como se eu já fosse de casa e pegou no meu braço de uma maneira tão familiar que senti como se a conhecesse há anos. O motivo da minha visita era o filho da Dona Maria: o Serginho. Eu estava realizando uma pesquisa sobre os efeitos do tratamento psiquiátrico na vida do paciente, de acordo com a visão do familiar. Serginho fazia tratamento em um serviço de saúde mental público. Já na adolescência, ele apresentou os primeiros sintomas da esquizofrenia e a gravidade do transtorno foi aumentando ao longo do tempo.
Dona Maria tinha uma família grande, mas Serginho foi o único a continuar morando com ela. Os outros filhos se casaram e continuaram morando por perto, mas sem assumir responsabilidades diretas pela mãe ou pelo irmão. Apesar da idade avançada, Dona Maria não abria mão das tarefas da casa, nem do cuidado ao filho, por mais que às vezes ficasse difícil lidar com ele durante as crises. Ele ficou alguns anos internado em hospital psiquiátrico e ficou com os resquícios da internação prolongada. Depois que voltou para casa, e após a desativação dos manicômios, Dona Maria passou a cuidar sozinha dele, mesmo naqueles períodos críticos, em que um tratamento mais intensivo realmente se fazia necessário. Dona Maria não teve formação escolar alguma, nunca foi inserida em grupos de formação para famílias de pacientes psiquiátricos, nem ao menos recebeu instruções para lidar com Serginho em momentos de crise. Entretanto, desenvolveu um aprendizado baseado em sua experiência, com a vida, para lidar com o filho, mesmo nos momentos mais difíceis. Por várias vezes, durante a entrevista, ela falou “mas eu nunca encostei uma mão no Serginho”, ao contrário dos irmãos que muitas vezes perderam o controle, partindo até para a agressão.
Quando Serginho recebeu alta de sua última temporada em uma instituição psiquiátrica, ele começou a frequentar vários bares do bairro em que morava. O fato de ele beber constantemente complicava ainda mais a sua situação e aumentava as preocupações de Dona Maria. Às vezes, Serginho não chegava em casa e tinha que ser catado pela mãe caído nas ruas da cidade. Outras vezes, ele chegava ferido, por cair sobre as pedras que calçavam as ruas. Mas o pior era que, além da bebida alcoólica o deixar agressivo, ela também impedia a recuperação de Serginho. Dona Maria era quem controlava as finanças do filho, e após um dia, em que ele tinha bebido muito e quebrado parte da casa, sua mãe tomou uma decisão. Após ter recebido o salário do filho aquele mês, ela foi de bar em bar, pagou todas as contas que ele tinha, como sempre fizera, e deu um aviso claro e definitivo aos donos dos bares: “a partir de hoje, tudo o que vocês venderem fiado para o meu filho ficará fiado, porque eu não pago nem mais uma conta de bebidas do Serginho”. E assim, em poucas semanas, o filho parou definitivamente de beber.
Serginho muitas vezes teve delírios de identidade, acreditando ser outra pessoa. Dona Maria contou que, certa vez, ele estava totalmente convencido de que era Juscelino Kubitschek, e que tinha uma missão urgente em Brasília. Daí ele começou a juntar suas coisas, procurar dinheiro e marcar a viagem no aeroporto da cidade, que naquela época nem existia. Ele estava realmente decido a sair, ansioso e nervoso pelo atraso que certamente poderia fazer com que ele perdesse o voo. Mas Dona Maria tinha um truque: procurou Serginho calmamente e disse que tinha se esquecido onde guardou o dinheiro. Portanto, Serginho, ou melhor, Juscelino, tinha uma missão mais importante naquele momento: ficar e ajudar a mãe a procurar o dinheiro perdido. Além do mais, os bancos só abririam no dia seguinte, e esperar, então, era a melhor coisa. Mas Juscelino certamente cumpriria os compromissos em Brasília, no dia seguinte, pois o voo sairia bem cedinho. E assim Dona Maria conseguia acalmar o filho, que no outro dia não mais se lembrava de nada. E ela atuava com perfeição. Mas o mais curioso, e mais surpreendente eu diria, e que ela não trazia sofrimento na voz, nem lamentava pela condição do filho. Só temia o momento em que viesse a lhe faltar. E continuava a contar as histórias com o sorriso aberto. E eram muitos os causos, como ela gostava de dizer. Talvez pudesse ficar lá durante dias e ela teria coisas para contar sobre o Serginho e sobre a sua forma surpreendente de não maltratá-lo, demonstrando seu imenso amor.
Já faz algum tempo que não tenho notícias dessa família. Talvez não mais tenha. Sei que enquanto viverem, Serginho terá suas recaídas, e sua mãe, humilde heroína, vai manejar, de uma maneira inteligente e corajosa, os comportamentos do filho para que ele não prejudique a si mesmo ou aos outros. Entretanto, guardarei essa memória, e se me concentrar, ainda consigo ouvi-la dizendo, com aquela voz mansa as mesmas palavras: “mas eu nunca encostei uma mão no Serginho”.
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