Minha prática na psicologia é marcada por uma preocupação com os esteios. Enquanto a maior parte dos profissionais e dos trabalhos científicos existentes falem sobre pacientes psiquiátricos, crianças abusadas e adolescentes em situações de risco, meus olhos profissionais sempre estiveram voltados para os personagens que recebem papel secundário: os familiares que cuidam de alguém com problemas (físicos, psicológicos ou emocionais), para a equipe de profissionais de saúde, etc.. O tópico de hoje é sobre os cuidadores familiares.
Sabem o ditado "Quem não chora não mama"? Sempre o percebi como verdadeiro e como fonte de preocupação. Alguém adoece em nossas famílias (ou se divorcia, ou perde o emprego) e as atenções se voltam para esta pessoa. Paramos nossas atividades cotidianas e cuidamos dessa pessoa, porque é o percebemos como correto e o que aprendemos como socialmente aceitável. Nesse processo de cuidar (que pode ser pontual ou durar uma vida inteira) a tendência é que quem assuma o papel de cuidador se esqueça de si mesmo e que o restante dos familiares também passe a negligenciar os sonhos e as necessidades dos cuidadores. É como se ao assumir responsabilidades com alguém se deixasse de ser uma pessoa para ser uma função: cuidador.
Quando alguém assume sozinho uma situação de cuidador costuma não ter muitas pessoas com quem contar. Os familiares e amigos se habituam a deixar as questões para que "o cuidador" as resolva. Da mesma forma essa pessoa que assume o papel de cuidador compra para si as obrigações de estar sempre disponível e de dar conta de prover todos os cuidados que esperam dele sem incomodar mais ninguém. Ao assumir esse papel, muitas pessoas se impõem grilhões que os levam a abandonar vida pessoal, sonhos próprios, amigos e inúmeras oportunidades.
Não entendam mal, não estou fazendo uma apologia ao egoismo.O ponto aqui não é abandonar familiares e amigos que estejam em dificuldade ou sejam dependentes para que nossas vidas não sejam alteradas, é não abandonar nossas vidas. Quando um cuidador se esquece que antes de qualquer outra coisa ele é uma pessoa com direitos e sonhos, ele inicia um processo de autodepreciação e adoecimento que pode prejudicá-lo muito e que tende a se intensificar com o passar dos anos. Ao se esquecer que somente alguém em bom estado físico e psicológico consegue realmente auxiliar alguém começamos um processo de construção de um futuro-novo-doente. Quem cuidará de dois (você e a pessoa de quem você já cuidava) quando você adoecer?
É difícil fazer com que os familiarese realmente dividam as tarefas do cuidado. Se duvidam disso, pensem em famílias saudáveis; as tarefas de cuidado dos filhos são igualmente divididas entre o pai e a mãe?
Ao se tornar cuidador de alguém sua vida será reestruturada, isto é fato. Da mesma forma que ela foi reestruturada quando você começou a trabalhar/estudar, mudou de cidade, casou, teve filhos, etc. Todos já vivenciamos várias reestruturações em nossas vidas. É necessário buscar pontos de equilíbrio. Momentos em sua rotina que pertençam a você e nos quais a forma como você está se sentindo seja considerada importante. E não, o momento do seu banho não conta, a não ser que seja algo não-automático e que você não faz por obrigação e nem usa para descarregar sua sobrecarga emocional chorando.
Sempre me compadeci das pessoas ditas fortes. Por receberem e assumirem esse lugar eles aprendem a sofrer calados e a não buscar ajuda. A tarefa de prover cuidados a alguém é difícil, a tarefa de se perceber como também merecedor de cuidados e de conseguir algum tempo para cuidar de si é igualmente difícil. Pobres pessoas ditas fortes. Nesse mundo em que apagamos fogos imediatistas, que é o mundo de quem se torna cuidador em tempo integral, a vida gira ao redor da pessoa que recebe cuidados e conseguir manter uma distração prazeiroza, tomar contato com você mesmo e com amigos ou tirar algum tempo para sonhar torna-se fútil na percepção dos cuidadores. Com isso a vida dos cuidadores vai perdendo a cor e abre-se espaço para que a amargura e o rancor se aproximem.
Amargura mata! Rancor invenena! Tristeza adoece!
Cuidadores que conseguem algum espaço e tempo próprios são cuidadores igualmente dedicados e muito mais felizes. Convido a todos a pensar sobre o tempo e a forma como tem feito esse investimento no próprio bem-estar e em lazer, especialmente se você tem obrigações de cuidador. Acreditem, vocês tem esse direito. Acreditem, vale a pena. Acreditem, isso fará de você um cuidador melhor, pois suas atividades virão marcadas com o sabor da escolha e não o amargor da imposição/obrigação.
Proponho que os cuidadores que lerem esse post (sejam mães, pais, cuidores de pessoas com necessidades especiais, etc.) selecionem uma atividade de lazer/prazer e a executem ao longo da semana. Pode ser tomar um suco X por prazer, assistir um programa de TV que você normalmente não se permite, sair de casa por algum tempo, ligar para alguém querido, comer algo que você goste, comprar algo. Qualquer coisa que você queira fazer mas não faça normalmente e não algo que você precise fazer.
Nessa primeira tentativa eu imagino que você se sentirá estranho e culpado, insista. Faça novamente algo por você na segunda semana. Ao fim do primeiro mês sua autopercepção e o tempo que você passa cuidando de outros provavelmente começará a ser ressignificado e para melhor. Isso é investir em saúde. Isso é investir em qualidade de vida. Isso é entender que ser cuidador de alguém é parte da sua vida e não é a única coisa que te define como pessoa ou merecedor de afeto. Teste, faça algo por você mesmo e compartilhe conosco depois.
Primeiramente gostaria de dizer o quanto o blog está legal/interessante.
ResponderExcluirAgora, em relação ao post, na maioria das vezes, os cuidadores não tomam um tempo para eles devido ao sentimento de culpa que este tempo trará e junto a este sentimento vem o julgamento das outras pessoas envolvidas (as vezes não tão envolvidas) no processo. A maioria dos cuidadores, depois de se tornarem o cuidador "oficialmente", passam a ser cobrados de maneiras diversas e nem sempre gentis; as outras pessoas envolvidas sobrecarregam mais o cuidador, além de estarem sempre julgando suas decisões.
Acredito que este seja o principal e maior motivo do cuidador "esquecer" de si mesmo.
acho q eh isso.
=)
Certamente isso contribui, mas a tendência a se auto-esquecer não é só dos cuidadores de portadores de transtornos crônicos, se não tomarmos cuidado, todos fazemos isso.
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